Contos

Conto: Nunca mais, é uma promessa!

– Nunca mais, é uma promessa. – disse Alberto para si mesmo ao sair de casa batendo à porta com raiva.
Caminhou até seu carro, abriu a porta, entrou. Ao sentar no banco do motorista, colocou a mão na cabeça, respirou fundo e murmurou:
– Chega, não dá mais para viver assim. Preciso melhorar minha vida, mas o que fazer para isso acontecer? Não dá mais para dividir a casa com meu irmão. Um marmanjo de 38 anos, que não quer saber de nada. Não arruma trabalho, não arruma nem o quarto. Não ajuda. Chega, pra mim já deu!
Pegou a chave do carro, deu partida e foi saindo a caminho do trabalho. Enquanto Alberto passava pela rua da casa em que morava, observou as casas que tinham ao redor e se imaginou morando sozinho novamente.
Ele era um rapaz de 28 anos, arquiteto. Trabalhava em uma grande empresa, porém, não conseguia mais “subir na vida”, parecia que estava estagnado. Não ganhava o quanto merecia, ganhava bem menos. Mas o valor já ajudava a pagar suas contas, e isso o deixava confortável. Seu irmão, Ricardo, havia se separado de sua esposa, pois ela não aguentava mais o desleixo dele e ele não fazia nada para melhorar. Então, Ricardo acabou indo morar de favor com Alberto, dizendo que iria ajudar com as despesas, assim que conseguisse um emprego novo. Mas já havia se passado 5 meses que Ricardo estava lá e ainda não havia arrumado nem um freela para ajudar no aluguel.
Alberto então decidiu que já que seu irmão não corria atrás, ele mesmo iria atrás de mudar toda essa situação. E ao passar pelo centro da cidade, viu um quarteirão com várias lojinhas, uma ao lado da outra. Como eles moravam em uma cidade pequena, não deveria ser difícil arrumar alguma coisa, nem que fosse um bico. Parou o carro e caminhou até as lojinhas. A primeira era uma loja de roupas, entrou e perguntou se estavam precisando de funcionário. A moça que lhe atendeu, disse que infelizmente não poderia ajudar. Então ele deixou o número de seu telefone e pediu para que ela o ligasse se soubesse de algo. Fez isso nas outras 5 lojinhas que haviam ali. Nenhum resultado, mas já estava atrasado para o trabalho.
– Tudo bem, não vai ser assim do dia pra noite. Mas fazer o que, não vou desistir de tentar. – pensou Alberto.
Quando estava chegando no escritório, o celular dele toca:
– Alô?!
– Alberto? É a Diana. Você acabou de deixar seu contato para um possível trabalho.
– Ah, oi Diana. Que rápido, não imaginei que me retornaria assim em questão de minutos. Tem vaga aí?
– Aqui não, mas sabe o que é.. Eu comentei com o meu chefe que você estava à procura, e ele disse que um amigo dele tem uma loja de brinquedos e estão precisando de atendentes.
– Que maravilha! Pode me passar o endereço? Assim que possível, passarei lá.
– Claro! É na Avenida Almeida Campos, 538. É só falar com o Gerandir.
– Muitíssimo obrigado, Diana. Se der tudo certo, te pago um jantar por ter me ajudado. Você não é casada, é?
– Não, senhor. Mas não precisa disso não. Fico feliz em ajudá-lo.
Alberto percebeu o desconforto na voz da moça, se despediu e desligou. Ficou o trabalho todo com essa história na cabeça. Não conseguia focar em seu trabalho, então disse que precisava resolver um assunto urgente na rua com um cliente, pegou seu carro e foi até a loja de brinquedos.
Chegou na loja e foi direto procurar pelo Gerandir. A moça que lhe atendeu pediu para esperar um momento que ia ver se ele podia atender.
Enquanto esperava, viu um rapaz loiro, jovem, todo arrumado vindo em sua direção.
– Você que está me procurando? Prazer, sou o Gerandir.
– Oi, muito prazer Gerandir, meu nome é Alberto. Estou procurando um emprego para o meu irmão, e me indicaram vir aqui que você estava à procura de novos funcionários.
– Estou sim, seu Alberto. Fale para seu irmão vir aqui amanhã às 8 horas. Para que eu possa falar com ele. Vamos ver no que posso ajudar.
– Ah, muito obrigado! Vou falar para ele sim.
– Mas, que mal lhe pergunte.. Porque ele não veio com você? Já que o emprego é para ele?
Alberto percebeu que Gerandir achou essa situação um pouco esquisita. Afinal, quem manda o irmão procurar um emprego ao invés de ir sozinho?
– Ah, é que ele tinha umas outras coisas para resolver agora.
– Entendi! Bom, espero ele amanhã às 8 horas. Não esqueça. Foi um prazer conhecê-lo.
Gerandir apertou a mão de Alberto em um cumprimento e saiu andando.
– O prazer foi meu. – disse Alberto.
Ao sair da loja, Alberto pegou seu celular e ligou direto para Ricardo contando a novidade. No entanto, Ricardo não pareceu muito entusiasmado com a notícia, no que respondeu:
– Tá bom!
——————-
No dia seguinte, Alberto levanta às 6 horas da manhã, em seu horário normal. Se arruma e vai para o trabalho. Nem vê Ricardo antes de sair de casa, mas imaginou que ele estivesse se arrumando para a entrevista.
Ao chegar em casa de noite, Alberto encontra Ricardo jogado no sofá assistindo TV, e pergunta:
– Eai, Ric. Como foi a entrevista? Conseguiu?
– Entrevista? Que entrevista?
– Você tá me zoando que não foi, né? Porra, Ricardo. Acorda para a vida. Não vai me dizer que ficou o dia inteiro aí jogado nesse sofá sem fazer nada? – falou Alberto muito irritado.
– Ué, não consegui acordar cedo. Você sabe que não acordo cedo. Não sei porque insiste nisso. – retrucou Ricardo.
Nesse momento, Alberto sabia que não podia fazer mais nada para ajudar seu irmão. Ele não queria ser ajudado, então Alberto disse:
– Olha, sinceramente? Eu desisto de você.
E saiu da sala. Foi para o quarto, e refletindo muito sobre isso tudo, ele chegou a uma conclusão:
– Eu não posso mudar meu irmão. Não posso fazer com que ele faça algo sem ao menos querer fazer. Não posso simplesmente expulsar ele daqui, não colocaria ele na rua. E como eu queria sair daqui mesmo, vou arrumar um lugar para mim, e ele que fique aqui. Uma hora ou outra, vai cair a ficha dele de que precisa de dinheiro para sobreviver. Quer saber? Vou mudar eu mesmo, vou mudar por mim, melhorar minha vida, minha carreira. Sei que eu consigo!
Foi nesse exato momento que Alberto soube o real sentido da vida. Que apenas ele pode traçar o caminho da própria vida, e se ele não estava feliz de como estava vivendo, apenas ele poderia consertar isso.
– Nunca mais vou viver desse jeito, é uma promessa..

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