Contos

A festa sem convite.

Uma da manhã e cadê o sono que insistiu em me perseguir o dia inteiro? Será que se cansou de esperar? Não. Volte, por favor.
Ah, não! Adivinha quem deitou aqui comigo para atrapalhar? Pois é, ela mesma, a insônia. Vou virar de um lado para o outro, vamos ver se assim ela se toca e percebe que não tem espaço para ela aqui e acabe indo embora.. Puts, não adiantou nada, se instalou aqui e não sai de jeito nenhum.
Já sei, vou ligar o Netflix pra ver se o sono volta, afinal, quem não gosta de Netflix, não é mesmo? Mas o que vou assistir? Ah, não! Lá vem a tristeza querendo levar minhas lágrimas embora. Não, não posso deixar. Já sei, vou colocar uma comédia, algo que já tenha visto, vai ver assim o sono volta. Vamos torcer pra que sim.
Assisto um episódio de How I Met Your Mother. Assisto dois episódios. Olho no relógio. São quase três da manhã. Sono, cadê você? Onde você está? Volte. Preciso de você, tenho que acordar cedo amanhã.
Olha só quem está chegando para deitar aqui também, a dor no peito. Achou que era festa e acabou se instalando. Mas pelo jeito, está achando que é uma rave que está tendo, não é possível. Que dor é essa? Pra que essas pontadas? Não, para, por favor. Acho melhor ir tomar água, vamos ver se assim ela se toca e some.
Levanto. Por mais que esteja tudo escuro por causa da noite, não enxergo nada. Lá vem a tontura. Acho que caiu minha pressão. Socorro, alguém me ajuda. Ninguém me ouve, estou sozinha. Penso “vamos, você consegue”. Fecho os olhos pra voltar ao normal. A visão preta foi embora, mas logo vem a dor de cabeça. Não é possível, todos resolveram me visitar hoje? Mas que saco!
Caminho até a cozinha. Pego o copo d’água. Bebo. Sobe um enjoo na hora. Mas que porra é essa? Só tomei água. Volto pra cama. A dor não para, é constante. Não aguento, o choro vem à tona. É, a tristeza conseguiu o que queria. Todos se instalam e ninguém vai embora. O sono não vem, deve ter arranjado uma festa melhor.
Volto a assistir, pelo menos assim tento me distrair com tudo isso. Vejo uma cena triste, começo a chorar. Lembro de quando era criança, de quando não tinha preocupação com nada. Começo a chorar mais ainda. Dor de cabeça insiste em ficar cada vez mais forte. Me levanto de novo, pego um remédio. Tomo. Olho pra caixa de remédios. A loucura vem à mente. Penso em tomar todos os remédios. Vai que assim o sono vem. Tomo um. Tomo mais um. Tomo outro. Mais um. Não, chega. Melhor parar. Deito de novo. Acho que o sono tá vindo.
Sete da manhã. Despertador toca. Cabeça está latejando. Pelo menos a insônia foi embora junto com a tontura. Bem, dois a menos. Mas pera aí, por que acordei? Não, não quero acordar. Sono, vem. Não vá embora. Mas não adianta, ele já foi. Pensamentos não param, não consigo ficar calma. Dor no peito volta com força, chegou chegando. Acha que só existe ela no mundo. To achando que vamos virar melhores amigas, já que ela insiste em permanecer comigo. Quem sabe, pelo menos assim tenho alguém comigo.
Passo dia todo com minhas amigas dores. É, acho que me acostumei. Chega à noite. Volta insônia. Volta tristeza. Volta tudo. E lá vamos nós a mais uma noite à procura do sono.

Anúncios

Um comentário em “A festa sem convite.”

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s